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A pandemia dos que não param: caminhoneiros enfrentam desafio de sobrevivência

Motoristas lidam com a falta de higiene em estabelecimentos à beira da estrada, pontos de parada fechados por conta da quarentena e falta de assistência médica em locais isolados do país

O caminhoneiro Dirceu Maia, 56 anos, foi de um extremo do país ao outro sentindo o coronavírus tomar conta do seu corpo. A febre que “parecia explodir a cabeça” se manifestou pela primeira vez nas estradas do Tocantins, depois de descarregar frios no Pará, no final de abril.

O caminhoneiro Dirceu Maia em sua Scania branca – Foto: Arquivo Pessoal/ND

Carregando cargas de gordura vegetal na Scania branca, o motorista se deslocou até Uberlândia (MG), onde recarregou o veículo com matéria prima a ser distribuída em solo catarinense. Além da febre, Maia seguiu viagem acompanhado de outros sintomas: calafrios e dores pelo corpo.

A Scania branca do Dirceu Maia – Foto: Arquivo Pessoal/ND

Após rodar mais de dois mil quilômetros, o caminhoneiro chegou no município onde mora com a esposa Carmen Maia, 52 anos, debilitado.

Faltou fôlego para subir as escadas da casa em Videira, no Oeste de Santa Catarina, pois a saturação do oxigênio no corpo dele estava baixíssima. O percurso foi encerrado na UTI do Hospital Divino Salvador.

Assim como Maia, estima-se que 8,6% dos profissionais do transporte em todo o Brasil já tenham sido infectados pelo novo coronavírus. A projeção teve como base a testagem de 36,3 mil trabalhadores do setor feita pelo SEST/SENAT (Serviço Social do Transporte e o Serviço Nacional de Aprendizagem do Transporte) em junho.

Dirceu Maia deixou o hospital em 18 de maio – Foto: Arquivo Pessoal/ND

Maia ficou duas semanas internado no hospital e mais 14 dias em quarentena. Durante esse período, precisou trocar de medicação 40 vezes. O caminhoneiro de Videira foi um sobrevivente.

Vulnerabilidade da estrada

Detentores de uma relação muito particular com a estrada, os caminhoneiros têm assistido ao sucateamento da profissão em tempos de pandemia, além de sentirem-se vulneráveis pela facilidade da contaminação.

A presença do vírus no Brasil diminuiu não só a liberdade, mas a oferta por comida a esses profissionais que dependem dos estabelecimentos à beira da estrada para se alimentarem. Para alguns, a chegada do coronavírus representou a perda da própria vida.

Vítimas do coronavírus em SC

Pelo menos nove caminhoneiros catarinenses morreram em decorrência da Covid-19 até a última quinta-feira (6). A nível de comparação, a taxa de letalidade chega a superar a dos enfermeiros, por exemplo, que é uma das categorias da saúde que atua na linha de frente do combate ao coronavírus. Até a última quinta, quatro enfermeiros haviam perdido a vida em Santa Catarina por causa da doença.

Os caminhoneiros dividem com os taxistas e demais motoristas as bênçãos do padroeiro São Cristóvão. Em 25 de julho, quando os viajantes celebram as graças alcançadas por intervenção do santo, Adilson Bortoncello, 37 anos; Adalto Álvaro Vieira, 47; Alexandre Sipriano, 34; Eloi Pinzetta, 49; Eumar Faccio, 46; João Bento, 52; Hélio Luiz Tabareli, 67; Hermes Palhano, 51; e Volnei Bortolini, 39, não puderam partilhar do momento religioso. Alguns deles morreram a milhares de quilômetros de casa.

Para entender a vulnerabilidade a que os caminhoneiros estão sujeitos é preciso “embarcar” com eles em uma de suas “viagens”. São inúmeras paradas até o destino final, tanto para as necessidades básicas do dia a dia como se alimentar ou tomar banho até as necessidades mecânicas como o abastecimento do veículo ou algum conserto de última hora.

Prevenir-se do vírus quando hábitos de higiene pessoal e as pernoites ocorrem em locais coletivos é um desafio. Pior ainda quando os sintomas da doença aparecem em momentos adversos como em locais desconhecidos ou no meio do nada.

Foto: Anderson Coelho/ND

Portas fechadas

Dirceu Maia, do começo da história, calcula ter contraído o vírus em algum banheiro de posto em meio às rodovias parenses terrosas e pouco pavimentadas, no final do mês de abril. Foi na mesma região que o caminhoneiro Deliandro Valasco, 38, natural de Rio Negrinho, Planalto Norte de Santa Catarina, ouviu falar pela primeira vez do coronavírus, em meados de março.

Valasco tem orgulho de conhecer o país “do interior do Nordeste ao interior do Pará”. Nas viagens, que podem levar mais de mês, o caminhão é sua casa. O acento se transforma em cama nos momentos de descanso e o rádio é o único companheiro. Apesar do improviso, a “casa móvel” não tem cozinha e nem banheiro.

Sem isso, o caminhoneiro é obrigado a parar na estrada. Só que muitos dos estabelecimentos não oferecem condições mínimas de higiene. A pandemia, portanto, piorou um cenário que já não era dos melhores.

Deliandro Valasco, 38 anos – Foto: Arquivo Pessoal/ND

A pouca informação que dispunha sobre a doença naquele momento assombrou Valasco. O trajeto do interior do Pará até a capital Belém foi tenso.

As consequências da pandemia logo foram notadas no comércio local, cujos preços já estavam inflacionados. O caminhoneiro pagou R$ 250,00 numa caixa de luvas, R$ 100,00 por quatro máscaras e mais R$ 25,00 em um tubo de álcool gel.

No caminho de volta, Valasco encontrou um território fantasma na beira da estrada. É que Santa Catarina foi o primeiro estado a adotar medidas de isolamento social, o que incluiu o fechamento de serviços considerados “não essenciais” como borracharias, mecânicas, restaurantes, conveniências de postos, bares e hotéis.

O caminhoneiro Adilson Fernandes, 47 anos, de São José, na Grande Florianópolis, passou a levar consigo uma caixa cheia de comida, uma vez que houve resistência de alguns donos de supermercados à entrada de transportadores, reflexo da mobilização para conter a doença.

Transporte não pode parar

Adilson Fernandes, 47 anos – Foto: Arquivo Pessoal/ND

Apesar das medidas de isolamento, os caminhoneiros precisavam continuar transportando ao menos as cargas de alimento e os suprimentos ligados ao setor da saúde.

Fernandes, por exemplo, ficou responsável pelo transporte de medicamentos e álcool gel de Joinville a Florianópolis.

A paralisação do setor econômico atingiu em cheio os motoristas que não podiam abrigar comida no caminhão, por ordens da empresa.

A repercussão dos relatos dos caminhoneiros que estavam vivendo a base de biscoito mobilizou ações voluntárias.

Solidariedade

No caminho de volta, após descarregar os suprimentos de saúde em Florianópolis, Fernandes já pôde se alimentar com salgados e marmitas distribuídos pelos voluntários nas rodovias catarinenses.

Em 26 de março, a SEST/SENAT passou a distribuir marmitas gratuitas em mais de 130 pontos das rodovias nacionais. A assistência foi fundamental para manter a categoria viva naqueles dias.

Ação da Polícia Rodoviária Federal de Piauí, em parceria com a SEST/SENAT – Foto: Divulgação/PRF/ND

O Deliandro Valasco também recebeu um kit com máscara, luvas e álcool gel que passou a ser distribuído de forma gratuita pela empresa onde trabalha. Mesmo equipado, ele ainda teme o adoecimento. Ao cruzar o país de volta para casa, em Rio Negrinho, sente falta de cuidado. “Você só vai ter amparo quando tiver morrendo”, lamenta.

O ex-lutador Ericsson Roberto, 33 anos, de Pindamonhangaba (SP), pai de quatro filhas, escolheu ser caminhoneiro pela liberdade. Em pouco mais de três anos de trabalho, o autônomo sente o peso do preconceito.

“Motorista de caminhão, grande ou pequeno, quando chega em um lugar sente o povo olhando de cara feia”, disse o pindamonhangabense de passagem por Santa Catarina.

Ericsson Roberto, 33 anos – Foto: Anderson Coelho/ND

Ele percorre o país com o seu próprio caminhão. Desde que começou a pandemia, nunca foi parado na estrada para nenhum tipo de teste ou orientação sobre o novo coronavírus.

Projeto de lei parado

Diante do cenário de risco, o senador Paulo Paim (PT/RS) apresentou um Projeto de Lei para que as condições básicas de higiene e alimentação fossem asseguradas pelo governo à categoria.

A proposta altera dois artigos da Lei 13.103 que dispõe sobre o exercício da profissão de motorista. Pela proposta, a ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres) deveria fixar valores máximos a serem cobrados para o uso de locais de descanso privados.

A outra ação prevista pela lei complementar é com relação à oferta de locais de descanso e espera pelas concessionárias de exploração de rodovias. Em caso de não cumprimento, o valor do pedágio cobrado dos veículos de transporte de carga seria reduzido. O texto, que foi lido em plenário em março, ainda tramita no Senado Federal.

Ver para crer

Faz um ano que a caminhoneira Dilce Nervis, 45 anos, de Chapecó, no Oeste de Santa Catarina, abandonou as longas rotas de trabalho. Ela substituiu as pernoites dentro do caminhão pelo conforto de sua cama.

O motivo foi a adoecimento da mãe, Leonilda Nervis, que descobriu um câncer. O corpo debilitado da matriarca e o tempo longe do filho a fizeram adotar rotas mais curtas.

Para Nervis, o vírus não era real. Ela não acreditava na letalidade da doença. A caminhoneira até adotou as medidas de segurança, mas porque precisava cumprir o protocolo adotado pela empresa.

A realidade, no entanto, foi mais feroz que a desconfiança. Sua irmã Ivanete Nervis, que mora em Aratiba (RS), foi infectada pela Covid-19.

Enquanto a irmã adoecia no hospital, Dilce Nervis se inquietava de preocupação. A cada quilômetro rodado, parava para secar as lágrimas e, assim, não prejudicar a sua visão da estrada.

Chorou compulsivamente por dias até que a irmã, após passar por internação no hospital, recebeu alta e venceu a batalha contra o coronavírus. “Nunca mais duvidei”, disse a caminhoneira.

A dúvida sobre a doença também era compartilhada pelo caminhoneiro Volnei Bertolini, 38 anos, de Vargem, na Serra catarinense. Ele costumava transportar areia, tijolos e madeira entre os municípios serranos e Itajaí, no litoral.

Apesar de não ser portador de outras doenças, ele mesmo foi vítima e teve sua vida abreviada por causa da Covid-19. Bertolini deixou a esposa Karin Milani, o enteado Matheus e a filha Isabela, de 4 anos. Para a mãe dele, Marlice Padilha Bortolini, 54, a descrença do filho sobre o vírus contribuiu para o agravamento da situação.

Volnei Bertolini e sua filha Isabela de 4 anos – Foto: Arquivo pessoal

Toda vez que chegava em casa de uma viagem, Bertolini pedia aos pais que desligassem a televisão por conta dos noticiários ligados ao coronavírus. Para ele, a pandemia era uma questão política.

“Acho que se ele tivesse dado mais credibilidade à doença, teria se safado. Ele achava que por ser novo, essa doença não o mataria”, lamentou a mãe.

O resultado falso negativo apontado no primeiro exame contribuiu para que Bertolini ignorasse os sintomas de fadiga e febre. No dia 20 de junho ele ainda descarregou tijolos sob chuva. No dia seguinte, amanheceu morto. Dias depois, a família recebeu o diagnóstico positivo do segundo teste.

Bertolini era caminhoneiro desde os 20 anos. Herdou a profissão e o caminhão do pai. Parte da renda dele servia para bancar outro caminhão – o do irmão Renan Borotolini, 22 anos.

“Quando amanhece o sol de domingo, é o pior momento para mim. Ele chegava às 9h para fazer churrasco com a família. Ele vinha sorridente e procurava se tinha carvão para preparar a carne. Foi num domingo que o encontramos morto na cama”, lamentou a mãe.

Após a morte de Bertolini, os cuidados com o caçula foram redobrados. Toda vez que o jovem chega de uma viagem, Marlice lava todas as roupas de cama e coloca dois tubos de vidro cheios de álcool gel no caminhão.

Grupo de risco

A experiência de ficar doente na estrada não ocorreu apenas com a Covid-19 na vida de Dirceu Maia, o caminhoneiro de Videira. Com as mãos no volante ele já descobriu a diabetes. Na ocasião, a visão ficou trêmula e a glicemia disparou. Foi também dirigindo que ele perdeu cerca de um litro de sangue durante um AVC (Acidente Vascular Cerebral). Na época, ele precisou viajar 60 quilômetros até conseguir ser hospitalizado.

As situações adversas, muitas vezes, foram vivenciadas em estradas remotas do Norte, onde falta sinalização e vida humana. “Na estrada não tem nada. Não tem médico, e nem pronto-socorro. Se ficarmos doente, deixamos o caminhão e a carga aonde? Como fica a nossa responsabilidade?”, questiona Maia.

Como tantos outros profissionais da estrada, Dirceu, Deliandro e Dilce não puderam parar durante a pandemia. Muitos dos caminhoneiros, sejam autônomos ou empregados, ainda pertencem ao grupo de risco, pois apresentam doenças consideradas comorbidades para o agravamento do coronavírus.

É o que revela uma pesquisa da CNT (Confederação Nacional de Transportes) divulgada no ano passado. Segundo o levantamento, 20% dos entrevistados tomam medicamento controlado. As doenças mais recorrentes entre eles são a hipertensão (56%) e o diabetes (18%).

A pesquisa relevou que pelo menos 27% dos profissionais são obesos e 18% sofre com a pressão alta. A depressão é um mal que acomete 57% dos 1.066 motoristas entrevistados.

Ilustração/ND

A Abramet (Associação Brasileira de Medicina do Tráfego) e a Abrava (Associação Brasileira dos Condutores de Veículos Automotores) lançaram uma cartilha com recomendações de segurança à categoria. Uso de álcool gel, higienização de cabines e uso de máscaras estão entre as orientações.

Diretor científico da Abramet, Flávio Adura diz que a preocupação com a categoria se intensifica pela relação de comorbidades com a doença.

“O perfil do caminhoneiro, até por ter poucas condições de fazer exercício físico e ter uma alimentação mais regrada, (…) é de ter obesidade, diabetes, hipertensão e às vezes com dificuldade de fazer esse tratamento”, comenta o especialista.

Pandemia amplifica solidão

Além das doenças, outro companheiro dos motoristas é um sentimento que não sai da cabeça do Adriano Rodrigues de Oliveira, 45 anos: a solidão. O caminhoneiro com mais de 20 anos de estrada comenta que o trabalho ficou ainda mais solitário durante o isolamento social.

Adriano de Catanduva – Foto: Arquivo Pessoal/ND

Morador de Catanduva, no Oeste de Santa Catarina, Oliveira conta que tem uma relação de amizade com todos os funcionários da empresa para quem distribui carga de açúcar e matéria prima para produção de papel.

Em uma viagem de 800 km de deslocamento, viu os poucos lugares de socialização serem esvaziados: postos e de combustível, conveniências, pontos de descanso. O carregamento e o descarregamento passou a ser regido por protocolo de distanciamento.

A nova vida de Dirceu Maia

Quando saiu do hospital, Dirceu Maia, de Videira, quis voltar às estradas imediatamente. “Falei com a vigilância e eles me disseram que eu só iria até Mafra, no Planalto Norte, e voltaria em um camburão”, lembra. Maia precisou aguardar mais 15 dias para retornar ao trabalho.

De volta à Scania branca, entre viagens pelo Norte e Nordeste do Brasil, viveu uma experiência curiosa. Ao estacionar em um posto de combustível em Lucas do Rio Verde (MT), se reuniu com um grupo de colegas da profissão.

“Eles questionavam sobre a doença. Deixei eles falarem. Depois mostrei o vídeo gravado no momento da minha alta. Um rapaz chegou a chorar”.

O vídeo produzido por profissionais do hospital em Videira revela a luta de Maia contra o coronavírus. Ao deixar a unidade, ele deixa uma mensagem de agradecimento: “Eu quero agradecer por tanto carinho, tanto cuidado e tanto amor que vocês tem por nós, pelo o que vocês fizeram por mim e por muita gente que precisa”. Confira:




Fonte: Post Completo

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